quinta-feira, 12 de julho de 2012


Cultura da paz
Por  leonardo boff

A cultura dominante, hoje mundializada, se estrutura ao redor da vontade de poder que se traduz por vontade de dominação da natureza, do outro, dos povos e dos mercados. Essa é a lógica dos dinossauros que criou a cultura do medo e da guerra. Praticamente em todos os países as festas nacionais e seus heróis são ligados a feitos de guerra e de violência. Os meios de comunicação levam ao paroxismo a magnificação de todo tipo de violência, bem simbolizado nos filmes de Schwazenegger como o “Exterminador do Futuro”. Nessa cultura o militar, o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. Nos processos de socialização formal e informal, ela não cria mediações para uma cutura da paz. E sempre de novo faz suscitar a pergunta que, de forma dramática, Einstein colocou a Freud nos idos de 1932: é possivel superar ou controlar a violência? Freud, realisticamente, responde: “É impossível aos homens controlar totalmente o instinto de morte…Esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderíamos morrer de fome antes de receber a farinha”.


Sem detalhar a questão, diríamos que por detrás da violência funcionam poderosas estruturas. A primeira delas é o caos sempre presente no processo cosmogênico. Viemos de uma imensa explosão, o big bang. E a evolução comporta violência em todas as suas fases. São conhecidas cerca de 5 grandes dizimações em massa, ocorridas há milhões de anos atrás. Na última, há cerca de 65 milhões de anos, pereceram todos os dinossauros após reinarem, soberanos, 133 milhões de anos. A expansão do universo possui também o significado de ordenar o caos através de ordens cada vez mais complexas e, por isso também, mais harmônicas e menos violentas. Possivelmente a própria inteligência nos foi dada para pormos limites à violência e conferir-lhe um sentido construtivo.


Em segundo lugar, somos herdeiros da cultura patriarcal que instaurou a dominação do homem sobre a mulher e criou as instituições do patriarcado assentadas sobre mecanismos de violência como o Estado, as classes, o projeto da tecno-ciência, os processos de produção como objetivação da natureza e sua sistemática depredação.


Em terceiro lugar, essa cultura patriarcal gestou a guerra como forma de resolução dos conflitos. Sobre esta vasta base se formou a cultura do capital, hoje globalizada; sua lógica é a competição e não a cooperação, por isso, gera guerras econômicas e políticas e com isso desigualdades, injustiças e violências. Todas estas forças se articulam estruturalmente para consolidar a cultura da violência que nos desumaniza a todos.


A essa cultura da violência há que se opôr a cultura da paz. Hoje ela é imperativa.


É imperativa, porque as forças de destruição estão ameaçando, por todas as partes, o pacto social mínimo sem o qual regredimos a níveis de barbárie. É imperativa porque o potencial destrutivo já montado pode ameaçar toda a biosfera e impossibilitar a continuidade do projeto humano. Ou limitamos a violência e fazemos prevalecer o projeto da paz ou conheceremos, no limite, o destino dos dinossauros.


Onde buscar as inspirações para cultura da paz? Mais que imperativos voluntarísticos, é o próprio processo antroprogênico a nos fornecer indicações objetivas e seguras. A singularidade do 1% de carga genética que nos separa dos primatas superiores reside no fato de que nós, à distinção deles, somos seres sociais e cooperativos. Ao lado de estruturas de agressividade, temos capacidades de afetividade, com-paixão, solidariedade e amorização. Hoje é urgente que desentranhemos tais forças para conferir rumo mais benfazejo à história. Toda protelação é insensata.


O ser humano é o único ser que pode intervir nos processos da natureza e co-pilotar a marcha da evolução. Ele foi criado criador. Dispõe de recursos de re-engenharia da violência mediante processos civilizatórios de contenção e uso de racionalidade. A competitividade continua a valer mas no sentido do melhor e não de destruição do outro. Assim todos ganham e não apenas um.


Há muito que filósofos da estatura de Martin Heidegger, resgatando uma antiga tradição que remonta aos tempos de César Augusto, vêem no cuidado a essência do ser humano. Sem cuidado ele não vive nem sobrevive. Tudo precisa de cuidado para continuar a existir. Cuidado representa uma relação amorosa para com a realidade. Onde vige cuidado de uns para com os outros desaparece o medo, origem secreta de toda violência, como analisou Freud. A cultura da paz começa quando se cultiva a memória e o exemplo de figuras que representam o cuidado e a vivência da dimensão de generosidade que nos habita, como Gandhi, Dom Helder Câmara e Luther King e outros. Importa fazermos as revoluções moleculares (Gatarri), começando por nós mesmos. Cada um estabelece como projeto pessoal e coletivo a paz enquanto método e enquanto meta, paz que resulta dos valores da cooperação, do cuidado, da com-paixão e da amorosidade, vividos cotidianamente.




O Deus de Bush e de Bin Laden
Por  leonardo boff


Apesar dos mestres da suspeita Marx, Freud, Nietzsche e Popper terem feito uma crítica devastadora da religião, ela resistiu e está voltando poderosamente em todas as partes do mundo. Mas, em grande parte, volta, fazendo de Deus o legitimador da guerra, do terrorismo ou do conservadorismo político e religioso. Bin Laden comenta os atos de terror, com rosto crístico, agregando:"Alá seja louvado". Bush antes de dar o ultimato a Saddan Hissein, se recolhe, consulta Deus em oração e comunica aos assesores:"Tenho uma missão a realizar e com os joelhos dobrados peço ao bom Senhor que me ajude a cumpri-la com sabedoria". Sob o Pontificado de João Paulo II ganhou força uma religiosidade carismática e fundamentalista que dança e canta o "Pai Nosso" sem articulá-lo com o "Pão Nosso". O Deus de Bin Laden e de Bush são ídolos porque não é possível que o Deus vivo e verdadeiro queira o que eles querem: a guerra preventiva e o terror que vitimam inocentes ou que queira um tipo de fé que não articula a paixão por Deus com a paixão pelos sofredores.


O ateismo ético tem razão ao negar esse tipo de religião com o seu Deus que justificou outrora as cruzadas, a caça às bruxas, a inquisição e o colonialismo e hoje a guerra do Iraque, o terrorismo islâmico e a moral sem misericórdia. É mais digno ser ateu de boa-vontade, amante da justiça e da paz, do que um religioso fundamentalista insensível à ética da vida.


É possível ainda crer em Deus num mundo que manipula Deus para atender a interesses perversos do poder? Sim, é possível, à condição de sermos ateus de muitas imagens de Deus que conflitam com o Deus da experiência dos místicos e da piedade dos puros de coração.


Então a questão hoje é: Como falar de Deus, sem passar pela religião? Porque falar religiosamente como Bin Laden e Busch falam é blasfemar Deus. Mas podemos falar secularmente de Deus sem referir seu nome. Como bem dizia Dom Casaldaliga, se um opressor diz Deus eu lhe digo justiça, paz e amor, pois estes são os verdadeiros nomes de Deus que ele nega. Se o opressor disser justiça, paz e amor eu lhe digo Deus pois sua justiça, sua paz e seu amor são falsos.


Podemos falar secularmente de um fenômeno humano que, analisado, remete à experiência daquilo que Deus signaifica. Penso no entusiasmo. Em grego, de onde se deriva, entusiasmo é enthusiasmós. Ela se compõe de três partes: en (em) thu (abreviação de theós=Deus), e mos (terminação de substantivos). Entusiasmo significa, pois, ter um Deus dentro, ser tomado por Deus. Não é uma intuição fantástica?


O entusiasmo não é exatamente isso, aquela energia que nos faz viver, cantarolar, saltitar, dançar e irradiar vitalidade? É uma força misteriosa que está em nós mas que é também maior que nós. Nós não a possuimos, é ela que nos possui. Estamos à mercê dela. O entusiasmo é isso, o Deus interior. Vivendo o entusiasmo, neste sentido radical, estamos vivenciando a realidade daquilo que chamamos Deus.


Essa imagem é aceitável porque Deus é próximo e dentro de nós, mas também distante e sempre para além de nós. Bem dizia Rumi, o maior místico do Islã: "Quem ama a Deus, não tem nenhuma religião, a não ser Deus mesmo". Nestes tempos de idolatria oficial há que se resgatar este sentido originário e existencial de Deus. Sem pronunciar-lhe o nome, o acolhemos reverentemente como entusismo que nos faz viver e que nos permite a alegre celebração da vida.



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